Ela se chamava Julia Margaret Holland Macdonell e morava em Joanópolis, pequena cidade no interior de São Paulo. Nasceu em 1916. Tinha mais de 90 anos quando, no ano passado, publicou seu primeiro e único livro, "The boy and the warrior", à venda na Internet. O livro, ficção, conta a história de Bento, um menino escravo brasileiro. Juilia usava o computador para se manter informada e fazer pesquisas; comunicava-se por e-mail e batia papo no MSN. Ela morreu agora em junho. E não são poucos os professores que, muito vivos, usam como desculpas para a sua própria acomodação que computador é coisa de jovens e que por isso não o utilizam com seus alunos. Como diz minha mãe, desculpa de peidorreiro é barriga inchada.
Observação: não é Julia que está na foto que ilustra este post.
Para quem não domina a língua de Shakespeare, é possível ver a legenda em português. Basta clicar em View Subtitles e escolher a opção Português (Brazil)
Para professores verem, lerem e pensarem. Se pensarem, teremos alguma chance que na semana que vem decidam fazer algo diferente quando chegarem na escola. Se fizerem algo diferente amanhã, estaremos começando a mudar a escola. Escola que precisa mudar, porque o mundo mudou. E com ele mudaram as crianças e os jovens. Será cada vez mais difícil manter jovens digitais em escolas analógicas. Isso não tem lógica.
Que tal pedir aos alunos que criem avatares, só que semelhantes a personagens de mangás, para que identifiquem seus trabalhos? Pode ser uma boa idéia, não? Afinal, juntam-se ao menos duas coisas que muitas crianças e jovens gostam: computador e mangá. E dá para fazer isso de graça, no site Faceyourmanga.
"Hoje, dia 19 de março de 2009, vou mais um dia para a escola, desanimada e certa de que as aulas que preparei para os alunos do 3º ciclo, 1º turno, não serão dadas. Mas busco entusiasmo não sei onde, entro para a sala de aula (sala 10, 6ª série) e inicio repetindo o que tenho falado com os alunos desde o primeiro dia de aula: coloquem o caderno, a agenda, o lápis, caneta, borracha, régua, tesoura sobre a mesa e guardem a mochila debaixo da carteira ou dependurada no encosto da cadeira (muitos se deitam, durante a aula, na mochila para dormir ou se escondem atrás dela para dar gritos ensurdecedores sem motivo algum ou para atirar bolinhas de papel enfiadas no corpo das canetas esferográficas).”
“Essa atividade demanda mais ou menos uns 20 min, pois metade da sala não ouve, ou finge que não ouve, continua a correr pela sala, está virada para trás conversando, está subindo nas bancadas sobre as janelas e de lá pulando de cadeira em cadeira e outros tantos estão a olhar no vazio, sem nada fazer.”
“Pergunto por que estão sem a agenda e sem as folhas, várias respostas: esqueci, meu irmão rasgou, fiz bolinha de papel, fulano (referindo-se a um colega de sala, ou mesmo de outras salas que durante os intervalos invadem como loucos as salas vizinhas, batem, jogam mochilas pelas janelas, rasgam material, andam sobre as carteiras) pegou rasgou ou fez bolinha de papel, rasguei porque achei que não iria precisar. (ah, seria tão fácil se você os colocasse então em duplas para fazerem a atividade, penso eu). Ah! sim, seria e a responsabilidade e o compromisso ficariam para ser construídos não se sabe quando. “
“Agora aula na sala 09, também 6ª série. Quando chego à porta da sala tenho vontade de sumir, há pelo menos uns dez alunos de pé sobre a bancada debaixo da janela. (...) A garota - infelizmente ainda não sei todos os nomes - que se assenta na última carteira da 2ª fila, perto da janela, pula da bancada para o tampo de uma carteira e depois para o tampo da sua, desce para a cadeira, pula no chão e corre, gritando pela sala atrás de um garoto. Passam na minha frente como se lá eu não estivesse e voltam. Paro na frente de todos e fico olhando, tenho a impressão de que estou numa rebelião. Penso: o que fazer?”
“Bolinhas de papel atiradas com o corpo das canetas, voam em todas as direções. Isso é o que mais me chama a atenção, mas garotos e garotas de pé, correndo, gritando tem aos montes.”
“Volto, não chego a parar um minuto na frente da sala e caio. Caio sem saber como nem porque. Ouço apenas um silêncio e: - a professora caiu!!!! Levanto-me de um só pulo, com algumas dores. Continuo o sermão dizendo que caí certamente porque perdi o equilíbrio em função do comportamento deles. Disse ainda que pareciam animais e que eu acreditava que estava dando aula para garotos e garotas. Enfim, babei de falar e tentei explicar o que faríamos naquela aula.”
“Enquanto aguardava que todos acabassem, foram quatro alunos à porta dizer que a coordenadora, Lorena, mandou falar para eu ir para a outra sala que o sinal já tinha batido. Eu dizia: - diga a ela que assim que os alunos acabarem eu vou. Devo ter ficado nessa sala por uns 15 ou 20 min, após o sinal, para que desse o visto em todos os cadernos.”
“Logo que iniciei as aulas perguntei à coordenadora qual era o diagnóstico desses alunos, ela me disse que não sabia e que iria procurar saber. Já são alunos da escola, pelo menos desde o ano passado, e estão na 8ª série. Sempre que lhes peço algo, a turma responde: 'ô professora eles num faz nada não, tem problema de cabeça'.”
Twitter in the classroom? Twitter na sala de aula?
Outro vídeo interessante sobre o Twitter em sala de aula. Este é o que provocou a resposta, em vídeo, que coloquei em outro post. De novo, o problema para que não sabe inglês. Sorry.
Prometo que um dia quando tiver nada tiver para fazer, me ocuparei legendando este vídeo. Até lá, ele de nada servirá para os habitantes da Terra Brasilis que não entendem a língua de Shakespeare. Este vídeo é uma resposta para outro, chamado "Twitter in the classroom" [postarei este vídeo em seguida, hoje ainda]. No vídeo abaixo está uma experiência de uso do Twitter na qual Monica A. Rankin, professora de História na Escola de Artes e Humanidades da Universidade do Texas em Dallas, envolveu seus alunos. As conclusões do experimento também estão online. They were written in english, for sure.
tossURL é outro site para encurtar URL. Ele é semelhante ao TinyURL, que uso com alguma freqüência quando preciso enviar alguns endereços "enooooooormes" para os amigos. Mas recomendo a todos muito cuidado quando receberem esses endereços encurtados. Tem muita malandragem [vírus, malware etc] atrás de uma algumas dessas URL curtas.
A carta de Paulo Roberto Girão Lessa, de Fortaleza, Ceará, publicada neste domingo no Painel do Leitor do jornal Folha de S. Paulo e transcrita abaixo, revela faces cruéis de uma educação indigente. Uma é a constatação de que o FUNDEB pode acabar virando coisa contra os professores, ainda que seja apenas em alguns rincões da Terra Brasilis. Pelo visto, ser dignamente remunerado não é destino de muitos deles. Os prefeitos, quando contratam bolsistas e estagiários para fugir ao pagamento do quase miserável piso salarial dos professores, repetem uma artimanha que encontro na EaD. Em cursos a distância, não raro se contratam tutores para fazer o papel de professores, pelo que recebem salário de monitores. O outro lado triste é ver onde é capaz de chegar a canalhice nesse país. Pessos eleitas para zelar pela educação mostram que ela nada vale. Tinha absoluta razão Eça de Queiroz quando afirmou que os politicos e as fraldas devem ser mudados frequentemente pelas mesmas razões.
Estou no interior do Ceará, onde visitei um grupo escolar com quatro salas de aula e cerca de 80 a 100 alunos. Com tantos políticos prometendo um piso salarial mínimo para os professores, pensei que tudo estava bem, mas, na verdade, a maioria dos professores são bolsistas que recebem bem menos que o piso salarial. Existem alunos que na quinta série do antigo primário ainda não sabem ler. A verdade é que os senhores prefeitos estão admitindo bolsistas e estagiários no lugar de professores qualificados e experientes. A qualidade da educação diminui, e o piso salarial está sendo razão para os professores formados serem afastados de suas funções. Denúncia como esta tem o objetivo de questionar os cidadãos sobre a qualidade que está sendo oferecida e sobre a educação que queremos para os nossos filhos. Ou fiscalizamos os nossos municípios, ou teremos em alguns anos situações irreparáveis na educação."
Circular pela internet pode ser tão perigoso quanto passear à noite por certas quebradas do Rio ou de São Paulo. As chances de assalto, estupro, sequestro, contaminação por vírus e até morte são parecidas. E todas essas modalidades de desespero estão ao alcance de um clique. Uma armadilha recente é a mensagem, em nome de alguma instituição, oferecendo "patrocínio para o seu projeto". Como no Brasil, hoje, todo mundo tem um "projeto" encalhado, as chances de um otário pagar para ver são inúmeras. E, com isso, é mais um computador infeccionado na praça. "Seu depósito já está feito - clique abaixo para conferir", informa um anônimo "diretor de contabilidade" de uma empresa idem. Alguém resiste à ideia de um insuspeitado dinheiro entrando na conta, mesmo que você nem trabalhe com aquele banco? Ou "Sua passagem foi emitida - confirme seus dados", numa tela com o timbre oficial de uma conhecida empresa de aviação. Ou "Atualizamos seu cadastro na Caixa Econômica", com as armas e os brasões da própria - quem vai duvidar? "Olhe nós dois naquela noite...", promete alguém, mandando fotos. Na nossa cabeça, há sempre a memória de uma longa noite de loucuras que, na verdade, não aconteceu, mas quem sabe?... Já um trote cruel é "Não tive coragem de te falar, mas veja as fotos". Você está sendo alertado para alguma infidelidade do seu cônjuge. E, mesmo que seja solteiro, viúvo ou sem namorada, sua curiosidade pode ser letal. Morder a isca em qualquer dessas situações significa ter o seu HD estuprado, seus dados bancários roubados, o cartão de crédito exposto e até um importante arquivo sequestrado, pelo qual você terá de pagar resgate. Enfim, tudo para lhe estragar a vida. Sair pela noite é mais seguro. Mais divertido também.
Artigo de Ruy Castro publicado hoje no jornal Folha de S. Paulo. O artigo acaba me lembrando quer viver sempre é perigoso. E penso no desafio que pais e professores têm nesse mundo, preparando filhos e alunos para viverem nesse mundo de perigo, seja ele virtual ou não.
"Nosso filho é ótimo. Você é que não está ensinando direito."
"Faço essa tarefa se eu quiser. É meu pai que está pagando".
Hoje, quando a escola deixou que pais que não educam tomasse conta dela mesma e dos professores, frases como essas se tornaram de todo momento. As frases foram tiradas da matéria "Quando ensinar é uma guerra", publicada na edição 2117 da Revista Veja. Elas foram ouvidas por uma professora de Biologia que acabou optando por trabalhar na educação infantil, ao invés de lidar com crianças e adolescentes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Ela conta que com as crianças menores a chance do desaforo também será menor. Torço por ela.
A qualidade dos professores é o elemento mais importante da escola. Será?
Ouso discordar de Eric Hanushek, ainda que, de forma semelhante a ele, penso que professor demonstradamente ruim não deve permanecer na escola. Discordo de Hanushek sem ter dados de uma pesquisa própria sobre isso. Contudo, estou convencido de que o "feeling" após mais de 4 décadas de magistério e a experiência que acumulei com estudos e pesquisas em escolas, ainda que tratando de outras questões, me permitem uma sustentação para a discordância. Qualidade do professor é um elemento essencial para que se possa assegurar a própria qualidade da educação. Mas não é suficiente. Professor de qualidade sem infraestrutura adequada nada fará. Da mesma forma, não conseguirá avançar se alunos não se comprometerem, se os pais não colaborarem, se os gestores não forem excelentes. Temo que considerando a qualidade do professor como elemento mais importante, estejamos como que jogando sobre eles a maior responsabilidade pela qualidade do ensino, ou pela falta dela. Ainda que a responsabilidade dele seja mesmo muito grande. Sempre digo que o problema é que a educação é uma questão matricial, não dá para olhar apenas para um ou outro dos seus aspectos. Por conta exatamente desse aspecto matricial, seus males também não podem ser tratados por uma "acupuntura", "cutucando-se" apenas aqui ou ali. Discordando do professor da famosa Stanford , transcrevo a matéria de Talita Mochiute que está no Portal Aprendiz e que fala do Seminário Educação e Desenvolvimento, realizado, nesta última quarta-feira, em São Paulo e promovido pela Fundação Itaú Social, no qual o professor esteve presente. Que a matéria possa servir para a reflexão e a manifestação daqueles que vêm até este blog. Que possamos chegar ao bom debate.
A qualidade dos professores é o elemento mais importante da escola
“A qualidade dos professores é o elemento mais importante da escola”, afirmou o professor norte-americano da Universidade de Stanford, Eric Hanushek, doutorado pelo MIT. O pesquisador participou na última quarta-feira (24/6) do Seminário Educação e Desenvolvimento, realizado pela Fundação Itaú Social, na cidade de São Paulo (SP). Durante a palestra, Eric Hanushek enfatizou a importância de políticas voltadas para a melhoria do rendimento do professor em sala de aula. “O que aconteceria se pudéssemos eliminar os piores professores?”, polemizou. Analisando o contexto educacional norte-americano, relatou que, se isso fosse possível, os Estados Unidos poderiam chegar ao nível do Canadá no PISA (sistema de avaliação internacional que compara o desempenho educacional dos países). “Se conseguíssemos substituir os 10% piores pelos médios, poderíamos atingir o índice da Finlândia (primeira no ranking)”.
O professor acredita que a melhora da qualificação dos professores é a chave para a eficiência do sistema educacional. "Não importa o tempo que a criança fica na escola, mas sim a quantidade de conteúdo que ela aprende", disse. Além de ser o responsável pela aprendizagem do aluno, o bom professor, de acordo com Hanushek, é capaz de diminuir as defasagens existentes entre uma criança de família rica e outra de família pobre. Segundo o professor, o que determina o bom rendimento do professor em sala de aula não é seu nível de escolaridade, nem o tempo de experiência, nem seu salário. "Não há uma relação direta entre esses fatores e os desempenhos do professor e do aluno. Então, como melhorar a eficiência dos professores?”, questionou. Para Hanushek, como é difícil, por questões corporativistas, demitir os professores
ruins, deve-se fazer programas agressivos de reconhecimento por mérito. “Os pagamentos devem estar atrelados ao rendimento do aluno”. Essa medida serviria para manter os bons profissionais em sala de aula e incentivar um maior comprometimento do corpo docente. O professor defende ainda processos rigorosos de seleção e um novo desenho para os programas de treinamento.
O economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ricardo Paes de Barros, presente no seminário, também defendeu a política de bonificação para professores. “Há heterogeneidade no desempenho. Por que não premiar os melhores? Os professores têm salários socialistas. Por que sub-valorizar os melhores? E sobrevalorizar os piores?”, provocou. Sobre essa questão, a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-secretária de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães, comentou que o judiciário é bastante refratário a mudanças na isonomia (equiparação) salarial. “As carreiras são dominadas por sindicatos que cobram os direitos, mas não o da qualidade”. Defendeu ainda a extinção das carreiras atuais, herdados de “legislações antigas e corporativistas”. “O diagnóstico é muito fácil de ser feito. O problema é como mudar a situação atual face às restrições de legislação. Como promover a diferenciação salarial e a gestão dos gastos de maneira inteligente?”, questionou o economista Naércio de Menezes Filho.
Educação e Desenvolvimento Econômico - De acordo com Menezes Filho, o investimento em educação é a maneira mais correta de melhorar os indicadores sociais e econômicos. Para os especialistas presentes no debate, o desenvolvimento econômico possui relação direta com a capacidade de formação de capital humano de um país. Essa capacidade só se alcança com a educação de qualidade. “Se o governo der início hoje a uma política pública de melhoria da qualidade da educação, os impactos serão sentidos em poucos anos, quando os estudantes se transformarem em mão-de-obra ativa”, acrescentou Hanushek. Para exemplificar esse impacto, o professor fez algumas projeções. “Se o investimento tivesse sido feito em 2005, o PIB do país estaria 10% mais alto que o atual em 2025. Isso significa que os ganhos do Produto Interno Bruto (PIB) compensariam todos os gastos com o ensino público”.
O professor lembrou que a eficiência dos sistemas educacionais não está estritamente relacionada ao gasto no setor. “As experiências mostram que não é suficiente só aplicação de recursos financeiros. É preciso ver o que ocorre dentro da sala de aula”. Maria Helena ponderou essa afirmação: “O gasto não resolve, mas no Brasil ainda está muito aquém. O valor per capita é R$ 1.400 por aluno/ano na educação básica”. Outro desafio para o sistema brasileiro, de acordo com Menezes Filho, é reduzir os índices de evasão escolar. “Apesar da ênfase na qualidade, temos ainda um problema de acesso, principalmente no Ensino Médio. As pesquisas indicam que há 50% sem acesso, mas as matrículas estagnaram nos últimos anos”. O professor da USP destacou ainda que o fraco desempenho da elite brasileira no PISA. “Os 5% melhores estudantes da Finlândia estão num patamar bem superior aos 5% do Brasil. Isso mostra que há algo de errado com todo o sistema de ensino”.
Os links não constavam da matéria conforme publicada.