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Professores temporários
Eu diria que, embora atrasada, chega em boa hora a decisão do Conselho Nacional de Educação, CNE, fixar em 10% do total o número de professores temporários nas redes públicas de ensino do país. Na rede estadual de São Paulo o índice chega a quase metade. Segundo matéria publicada ontem na Folha de S. Paulo, alguns educadores apontam essa situação do temporário como uma das explicações para a má qualidade do ensino. Segundo os educadores, ela seria, também, a consequência dos temporários não terem passado por uma rigorosa seleção, em um concurso público. E, alegam, eles tenderiam a não ter continuidade no trabalho, haja vista que podem perder o posto a qualquer momento. Não me passou pela cabeça o argumento da falta do concurso. Os concursos para professores de redes públicas falham na seleção, em sua quase totalidade, porque tendem a concentrar-se no conteúdo que os professores ministrarão. Avalia-se, por exemplo, o que um candidato sabe de Biologia, não se ele sabe ensinar Biologia. Sabemos que não há relação de causa e efeito em dominar algum conteúdo e saber ensiná-lo, embora essa seja uma lógica na escola brasileira. Tanto é que se permite que lecione quem jamais teve uma disciplina de formação pedagógica. Mas se nos lembrarmos de recente episódio envolvendo temporários e concurso, veremos que nem dominar conteúdo é mais exigência para ser professor, ao menos em São Paulo. Uma recente tentativa da Secretaria de Estado de Educação de São Paulo de realizar o concurso para professores temporários foi barrada na Justiça, a pedido do próprio sindicato de professores.
O que lamentei no episódio é que a APEOESP não buscou anular o concurso porque discutia a real condição de selecionar desses professores. O que movimentou o sindicato foi uma ação típica do corporativismo rasteiro, uma tentativa de proteger professores, um lamentável exercício de esprit du corps. Por obra da APEOESP e graça da Justiça, continuam lecionando professores que tiraram zero na prova do conteúdo que devem ensinar. Para mim, o maior problema com os temporários está na ausência de compromisso com a escola, com os alunos. E falta o compromisso exatamente pela precariedade de sua situação. A decisão do CNE chega tarde porque vários alunos foram vítimas dessa improvisação. Chega em boa hora porque poderá livrar estudantes do "mal do professor passageiro". Mas, lamentavelmente, nada garante que professores concursados ajudarão a tirar a educação pública da indigência em que se encontra. Aprovados em concurso, praticamente tornam-se "imexíveis", como dizia o "inesquecível" Rogério Magri, que provoca apenas nefastas lembranças, por si e pelo governo do qual foi ministro. O estágio probatório só prova a capacidade do professor resistir às mazelas da escola, permanecendo na rede pública de ensino apesar de tudo. A sua capacidade de desempenhar bem a função não precisará provar, já que não será avaliado nisso. Passado o tempo do estágio, suportadas as adversidades, a estabilidade do professor - que na verdade é a troco de nada - estará assegurada.
As imagens são, respectivamente, do sites Discovery Education e do jornal A Tarde online.
Escrito por Simão Pedro Marinho às 11h31
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Frase do momento
"Os pais entendem que a escola é algo obrigatório. Mas há um sentimento também de que educação demais é um problema".
Jailson de Souza e Silva, secretário de educação de Nova Iguaçu, RJ, comentando a baixa adesão das famílias ao programa de ensino integral em matéria publicada no Estadão.
Escrito por Simão Pedro Marinho às 10h54
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Luzes, câmera, educAÇÃO
Muitas vezes comentei aqui no blog sobre tecnologias de informação que a escola deveria utilizar mais e melhor na formação de indivíduos imagéticos, multidimiáticos. O cinema é uma delas. Vejo o cinema como um elemento importante, da mesma forma que a fotografia, para uma espécie de alfabetização visual. Como sempre reforço, em palestras e aulas, com os celulares ficou fácil e extremanente barato fazer filmes. Software gratuitos estão disponíveis para a edição dos filmes. Portanto, estão superados os obstáculos de ordem técnica e financeira para que os alunos possam expressar conhecimentos com o concurso da multimídias. Contudo, para que isso aconteça algumas coisas são necessárias. Os professores precisam ter uma espécie de "cultura de filmes", o que podem construir. Serão necessários tempo disponível e capacidade de esforço para que possam envolver seus alunos nessa tarefa. E, claro, tudo isso dependerá do convencimento sobre a utilidade desses usos. Transcrevo, a seguir, um artigo de Contardo Calligaris, publicado ontem no Caderno Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo. No artigo, o psicanalista e colunista trata do cinema na escola. Cinema na escola A primeira tarefa do crítico é a de permitir que a obra entre na vida do leitor e a transforme
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Tempos atrás, neste espaço, eu estranhei que o cinema não fosse matéria escolar: os alunos, pelo mundo afora, devem aprender a ler e a apreciar as artes e a literatura (incluindo o teatro -reduzido ao texto), mas não o cinema. Talvez seja por alguma sisudez dos pedagogos que escolhem programas e objetos de estudo: "O cinema diverte? Então, divirtam-se; a escola não tem nada a ver com isso", como se o prazer das massas implicasse o escasso valor cultural dos "produtos".
As próprias artes e a literatura parecem estar no "panteão" das matérias escolares à condição que os alunos renunciem ao "barato" de ler e de olhar. Por sorte, sempre há professores que contaminam os alunos com seu próprio prazer na fruição de literatura e arte. Mas eles são exceção: em geral, o prazer é esmagado pelo peso da história literária (frequentemente transmitida sem uma relação viva com a história das ideias e dos homens) e de uma análise, dita "crítica", que teima em excluir o essencial da experiência do leitor, ou seja, o fato de que, lendo, ele transforma sua experiência de si mesmo, dos outros e do mundo. Por exemplo, durante o secundário, meu professor de literatura conseguiu me tornar quase impossível a leitura (obrigatória) de "Os Noivos", de Manzoni, que é (descobri depois) um grande romance. Em compensação, meu professor de grego, embora tivesse de nos ensinar a língua junto com sua literatura, transformou a "Odisseia" em parte do nosso mito pessoal. Com ele, a gente se apropriou de um patrimônio de experiências que mal poderíamos viver numa vida inteira. Quem nunca viajou soube o que é a nostalgia de Ítaca, e quem viajou viveu aquela nostalgia mil vezes mais intensamente. Foi publicado recentemente, aliás, um pequeno livro de Tzvetan Todorov, "A Literatura em Perigo" (Difel), que recomendo a todos os que ensinam. Todorov, que foi um dos pregoeiros do formalismo na análise literária francesa, constata o fracasso do ensino da literatura e propõe que, antes de formar críticos, a gente forme leitores. Mas voltemos ao cinema. Uma boa notícia não faz mal: no Estado de São Paulo, começa agora o programa "O Cinema Vai a Escola" para o ensino médio. Os educadores já receberam uma primeira caixa com 20 filmes em DVD (outra virá) e dois volumes do "Caderno de Cinema do Professor" (um terceiro também chegará mais tarde). O primeiro lote inclui o DVD "Luz, Câmera... Educação", que mostra um pouco os artifícios e recursos do cinema, mas o projeto do programa aparece sobretudo no primeiro caderno dos professores. Trata-se de um guia para conversas possíveis com os alunos, depois de cada filme. Sem esquecer completamente a análise da linguagem cinematográfica e a história do cinema, o acento é sobre a relação de cada filme com questões que podem surgir em outras disciplinas ou, simplesmente, na vida dos alunos: problemas, dramas e dilemas que são, no fundo, cotidianos.
Ou seja, a intenção é a de enriquecer a experiência cinematográfica dos alunos, não para que jubilem ao reconhecer, em cada cena, planos abertos e planos fechados, mas para que possam, graças aos filmes aos quais eles assistem, tornar sua existência mais complexa e mais intensa. Talvez alguém se queixe de que não há, no novo ensino, teoria e história suficientes ou que ele não transforma os alunos em críticos. Respondo assim. Na faculdade, fui aluno de alguns grandes professores de literatura (J. Starobinski, J. Rousset, G. Steiner, R. Dragonetti, R. Barthes). Cada um de seu jeito, eles me ensinaram a analisar um texto, mas a razão de minha gratidão por eles é outra: todos confirmaram meu amor pela ficção, porque todos entendiam que a primeira tarefa do crítico é a de se deixar seduzir pela obra e, com isso, ajudar o leitor a permitir que a obra entre na sua vida e a transforme. Havia, na faculdade, uma exceção: um professor (de novo, de literatura italiana) que parecia medíocre, e talvez fosse mesmo. Ele sabia pouco ou nada de teoria crítica, não analisava os textos, apenas declamava longos trechos das obras e, emocionando-se, contava casos de sua vida nos quais a leitura daquela obra o tinha ajudado a viver. Ruim? Pode ser. Mas o fato é que ele também nos dava uma vontade danada de ler os livros que trazia para a aula. Desejo que o mesmo aconteça com o cinema nas escolas de São Paulo e, quem sabe, do resto do Brasil. Eu inseri os links ao longo do texto de Calligaris. Eles não constavam do artigo publicado na Folha.
Escrito por Simão Pedro Marinho às 12h13
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Criando jornal online
Que tal criar um jornal online com seus alunos? Veja que não falo do blog que hoje é elemento de um jornalismo cidadão. Mas é uma proposta que simula o que significa editar um jornal. Há vários elementos. Pois é exatamente isso o que o Jornal Express - que, pelo que sei, ficou uns tempos fora do ar - permite. É possível criar cadernos e seções, cadastrar colaboradores, inserir manchetes da página principal e dos cadernos e ter uma espécie de Painel ou Cartas do Leitor, com possibilidade de aprovação dos comentários. Enfim, lembra a estrutura de um jornal de verdade. A utilização do Jornal Express é gratuita; exige-se apenas um cadastro. Para explorar o recurso, criei um jormal experimental, o Escola. A tarefa não foi difícil, embore eu considere que as interfaces do site pudessem ser melhores, mais amigáveis.
Escrito por Simão Pedro Marinho às 11h24
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Até quando?
Fim da aura Mais casos de violência em salas de aula brasileiras. Na terça-feira da semana passada, em Salvador, cinco homens invadiram uma escola e mataram a tiros de pistola um estudante de 18 anos. Foi um ato planejado: entraram e foram direto à sala da turma do garoto. Talvez um ajuste de contas por algum negócio feito na rua. Mas não importa: a questão foi resolvida na escola. Na quinta-feira, numa escola de Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo, um aluno de 14 anos exibia-se em classe com um revólver calibre 38, a princípio descarregado, apontando-o para a cabeça dos colegas. O professor estava fora. O menino colocou um projétil na arma e, continuando a fanfarronice, disparou sem querer e acertou o joelho de uma colega. O revólver pertencia a um tio dele, de profissão vigilante - nem tão vigilante assim, por deixar sua arma ao alcance de um garoto. No mesmo dia, de novo em Salvador, outro estudante, idem, 14 anos, foi baleado por um homem que subiu o muro de um ginásio estadual e disparou duas vezes contra ele. O menino não vai morrer, mas espanta como as escolas se tornaram palco de vinganças e desenlaces. Uma recente pesquisa em escolas públicas baianas revelou que 6 em cada 10 alunos já foram protagonistas ou vítimas de atos violentos. Não deve ser diferente em outros Estados. Antes, os colégios tinham uma aura de intocabilidade. Mestres e alunos resolviam entre si suas diferenças. Os pais só compareciam quando chamados. A polícia também não entrava e, quando isso acontecia, como na ditadura, era um escândalo. Hoje são os bandidos que invadem. A escola tornou-se uma extensão da rua. Ou do quarto dos garotos, nisto incluindo o celular e o iPod, que eles levam para a sala de aula como extensões de si mesmos.
Artigo de Ruy Castro publicado hoje no jornal Folha de S. Paulo. A imagem é do site Jornal Express.
Escrito por Simão Pedro Marinho às 11h05
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Frase do momento
Esta frase pode servir de alerta para professores, especialmente os de escolas públicas, sobre a imperiosa necessidade da incorporação das tecnologias digitais de informação e comunicação [TDIC] na educação. Trata-se de uma responsabilidade social a inclusão digital de pessoas de segmentos menos favorecidos da nossa sociedade. "O futuro já chegou. Só não está distribuído de forma equilibrada." William Gibson, autor de Neuromancer, um livro de ficção científica publicado em 1984 que introduziu conceitos inéditos para a época, como inteligência artificial e ciberespaço. Esses conceitos foram explorados mais tarde, em 1999, na trilogia Matrix. 
Por falar em Matrix, na comemoração dos 10 anos do primeiro filme da série o caderno Link do jornal O Estado de São Paulo trouxe uma matéria muito interessante sobre o que chamou de primeira década da era digital.
Escrito por Simão Pedro Marinho às 10h21
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Frase do momento
"A tecnologia só é TECNOLOGIA para a gente que nasceu antes dela ser inventada". Alan Kay, professor do MIT. 
Escrito por Simão Pedro Marinho às 10h02
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Manuscrever ou digitar. Eis a questão.
Transcrevi hoje no blog a matéria publicada, no último dia 23 de março, no Caderno Folhateen, do jornal Folha de S. Paulo, que abordou a questão da substituição do manuscrito pela digitação [que, claro, ainda depende das mãos] na rotina dos alunos nas escolas. No Folhateen de hoje, estão algumas cartas de leitores que se posicionam quanto a essa questão. Acaba interessante o confronto de opinões entre uma leitora de 32 anos de idade e um de 14 anos. Gerações diferentes - ele é geração Net - trazendo opiniões diferentes. E ainda tem a opinião de uma professora,. que não deve ser da espécie Homo zappiens. E você, o que pensa sobre esse assunto?
Digitar x escrever 1 "A reportagem de capa da última edição fala sobre a substituição que os alunos de escolas particulares andam fazendo, da escrita à mão pela digitação. Se passarmos a somente digitar, chegará uma hora em que não saberemos mais escrever corretamente com a caneta, já que os computadores corrigirão todos os erros ortográficos e farão o favor de tornar legível toda e qualquer palavra. O adolescente deve, sim, aprender a digitar e a usar o computador, que faz parte da sociedade em que vive e, principalmente, de suas relações sociais, mas é preciso, antes, aprender e dominar a escrita à mão." FERNANDA RIBEIRO, 32, São Paulo Digitar x escrever 2 "Deve ser incrível estudar numa escola que permita que os alunos usem notebooks! Agora, me respondam: há diferença negativa no rendimento do aluno? É claro que não! Computadores nos ajudam a desenvolver a leitura e a escrita, afinal, digitar é bem mais fácil e mais rápido do que escrever! É óbvio que a escrita não vai acabar, mas irá diminuir muito! "Registro pessoal" nem sempre é uma assinatura manual, pode ser assinatura digital. Falando nisso, não posso deixar de contar uma coisa que aconteceu comigo. Certa vez, uma professora me levou até a coordenadora pedagógica da minha escola só porque não gostou da minha letra! Tem cabimento uma coisa dessas? Isso resolveria minha letra? NÃO!" GABRIEL JUSTO, 14, São Paulo
Digitar x escrever 3 "Oportuníssima a pauta da reportagem "Quem entende a letra dos jovens?" [ed. 23/3], mas ela contextualiza uma minoria de jovens que vive uma tendência. Por que não mostraram também os jovens que estudam nas escolas públicas e em colégios menos elitizados? O leitor que não mora em "Sampa" não ficou situado nem se identificou com as citações institucionais da reportagem. Tenho alunos vestibulandos e estes, mesmo tendo computador em casa, sabem que precisam do exercício da escrita à mão. Não se pode generalizar que "os jovens da era digital contestam a utilidade de se escrever à mão" se o universo dos entrevistados não reflete a diversidade das fatias sociais." DORALICE ARAÚJO, Curitiba
Escrito por Simão Pedro Marinho às 09h50
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Site para testar a nova ortografia. Fui testar.
No início do mês, coloquei no blog um post sobre um site que faz, gratuitamente, correções de textos de acordo com a nova ortografia da língua portuguesa. Por causa de uma resposta a uma mensagem de uma colega, fiz um teste no site. Ele se saiu bem, ainda que tenha "engolido" uma palavra errada que digitei. As imagens abaixo mostram partes de telas capturadas durante o teste. O site é útil. Mas como sou ligado em livros, a não ser que ele não esteja à mão, uso a 5a. edição do Vocabulário Ortográfico da Lingua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, para já ir conferindo a nova ortografia, que ainda não é exigida. Mas se posso antecipar a aprendizagem da que para mim será a segunda reforma ortográfica, por que não o fazer? 



Escrito por Simão Pedro Marinho às 09h05
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Escrevendo, à mão ou na máquina.
Transcrevo matéria de Débora Yuri, em colaboração para a Folha de S. Paulo, publicada no Caderno Folhateen em 23/03/09. Escrevendo torto por linhas certasJovens da era digital contestam a utilidade de se escrever à mão; os efeitos começam a aparecer na caligrafia
Um teclado na mão vale mais do que mil canetas no estojo? Simone Janovich, 17, acha que sim. Ela leva seu laptop para a escola todos os dias. "Prefiro escrever no computador. Tenho facilidade para digitar, e fica mais organizado", diz ela, que acha mais fácil estudar "fazendo tudo no laptop". "Tiro dúvidas com meus amigos pelo MSN, trocamos e-mails sobre anotações de aulas, falo on-line com os professores. O computador também poupa um pouco os dedos. Chega de calos!", continua ela, que só escreve à mão quando necessário -em geral, durante provas escolares e aulas de redação. Como Simone, muitos jovens sentem-se mais à vontade digitando do que redigindo à mão. Seria o prenúncio do fim da letra manual? A atual geração não escreve em agenda e diário, mas em blog; comunica-se por meios eletrônicos, com mensagens de texto por celular, MSN, Orkut, Twitter ou e-mail.
Caligrafia para quê? Educadores relutam em apostar na extinção da caligrafia, mas admitem o desinteresse e a diminuição da prática. "A escrita é um recurso que jamais vai acabar, é como os livros, que não vão sumir, embora muita gente hoje leia mais na internet. Só se aprende a escrever escrevendo e só se aprende a ler lendo. O mundo totalmente informatizado não é para essa nem para as próximas gerações", diz a psicopedagoga Lígia Fleury, do Colégio Renascença. Muitos jovens questionam a importância de escrever à mão, diz Lígia. "Quando um aluno fala que não precisa disso, eu respondo que nem sempre ele terá um computador à disposição, que ninguém fica conectado 24 horas por dia. Tem que saber escrever manualmente." No Renascença, os alunos podem levar laptops para a sala de aula, com uma restrição: nada de entrar na web. Nesse cenário, o maior vilão é o corretor ortográfico, criticado por educadores mais conservadores. "Eu oriento os meus alunos, digo que essa ferramenta serve para chamar a atenção para um erro e ensinar o correto. Não pode ser usada como um ato mecânico de corrigir. Existe espaço para o computador e para o caderno na escola", diz Lígia. Outra adepta da moda de trocar pesados cadernos por um computador portátil é Marjorie Sterenberg, 16. "O meu laptop é como um caderno com todos os meus cadernos e com muito mais recursos. É mais prático anotar as aulas assim. Se você escreve errado, deleta, não precisa apagar ou riscar tudo", diz.
Marjorie admite que tem dificuldade para escrever à mão. "Eu estudava numa escola britânica onde todos os alunos tinham laptop desde a oitava série. Minha letra não é muito boa, não treinei caligrafia", conta ela, que sonha com provas digitalizadas e se preocupa com a redação do vestibular. Rafael Elkabets, 16, só troca o computador pelo papel quando é obrigado. "No futuro, vou precisar mais do computador do que de caligrafia. Mas eu sempre me esforço para fazer letras bonitinhas nas redações", diz. Para a psicopedagoga Raquel Caruso, diretora da Edac (Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico), o computador ajuda a camuflar falhas. "Algumas crianças têm dificuldade na escrita manual e, quando conhecem o computador, esses problemas desaparecem. É preciso ter uma escrita que seja compreensível para os outros. Depois que isso estiver sedimentado, pode-se usar o computador sempre." Essa geração não escreve menos, ao contrário -só não escreve mais à mão, compara Débora Vaz, diretora da Escola Castenheiras. "O [escritor] Mário Prata falou uma vez que essa geração escreve muito mais do que as anteriores. No meu tempo, era impensável um jovem ficar quatro horas seguidas lendo e escrevendo."
Escrito por Simão Pedro Marinho às 07h38
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A escola - e o ensino - do futuro
Para que as pessoas possam entender o desafio que as escolas e os professores terão para lidar com o aluno do século XXI, o Homo zappiens, a revista Veja criou um infográfico bastante interativo. Ele está disponível em http://veja.abril.com.br/infograficos/escola-futuro/index.html.
Ainda que o título se refira ao futuro, o infográfico fala de uma realidade que está posta, com alunos que blogam, participam de comunidades e redes sociais virtuais, jogam online. O descompasso fica por conta do que fazem professores e escola. O que deveriam fazer, para educar em tempos de tecnologias digitais, é que ainda está no plano do futuro. E, não seria arriscado dizer, está atrasado. Penso que vale a pena dar olhada no infográfico e discutir o que ele aponta.
Escrito por Simão Pedro às 18h57
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As agendas da educação
Transcrevo, abaixo, um artigo de João Batista Araujo e Oliveira, que foi publicado na Folha de S.Paulo no último dia 24/3 e andou provocando algumas polêmicas. O autor, psicólogo e doutor em educação, foi secretário-executivo do MEC em 1995. Atualmente exerce a presidência do Instituto Alfa e Beto. As agendas da educação
As mudanças que vêm ocorrendo na rede estadual de educação de São Paulo são promissoras. Pelo menos três das cinco condições necessárias para fazer uma escola funcionar estão em andamento: o programa de ensino, a avaliação calcada nesse programa e um sistema de incentivos baseado no desempenho. As outras duas que faltam são talvez as mais espinhosas, e ambas se circunscrevem ao âmbito da autonomia: a do diretor - especialmente a autonomia administrativa - e a pedagógica, que esbarra, por sua vez, na formação básica do professor. Inúmeros avanços foram feitos pelo governo estadual para romper as amarras corporativistas, que inibem o gerenciamento eficaz dos recursos humanos. Mas falta percorrer um bom caminho até que o diretor tenha, de direito e de fato, o poder e a autoridade para fazer a escola funcionar. Para isso, a secretaria precisa dispor de meios para gerenciá-lo. No caso da autonomia pedagógica, os resultados da recente prova de seleção de professores-colaboradores evidenciam quatro grandes problemas. Primeiro, quase metade do universo em questão é composto por temporários. Sabemos que não se faz uma escola com alta rotatividade de diretores e de corpo docente. Segundo, só pouco mais de 20% do total de professores, contratados ou efetivos, receberam formação básica adequada. Terceiro, pouco sabemos da diferença de desempenho de efetivos e contratados. Quarto, nada sabemos do impacto dos estágios probatórios. O desafio imediato é lidar com as consequências dessa realidade. Até recentemente, os sistemas educativos ignoravam tais limitações. Em nome da autonomia da escola, o ensino corria solto. A iniciativa restringia-se às comprovadamente inócuas capacitações - mas bilhões de reais foram gastos pelo governo paulista. As propostas atuais não parecem atacar as reais limitações dos professores com instrumentos eficazes. A literatura educacional aponta como solução mais adequada o ensino estruturado, desde que efetivado sob o comando da direção da escola. Com efeito, no caso da alfabetização, isso já vem ocorrendo. A lamentar o fato de que tanto o programa de ensino quanto a proposta de intervenção são deficientes. Por razões inexplicáveis, a secretaria optou por uma concepção equivocada de alfabetização, ignorando os avanços científicos na área. Há dois desafios na reforma educativa. Não se pode tratar uma questão como a alfabetização atendendo a pressões ideológicas e corporativas em detrimento do sucesso do aluno. Também não bastam soluções formais, como o ensino estruturado. É preciso eficácia. O critério da educação baseada em evidências, que vem sendo usado para justificar muitas das intervenções da reforma paulista, foi solenemente ignorado no caso da alfabetização infantil. Usar a evidência científica só quando interessa e descartá-la quando contraria as verdades locais estabelecidas desmoraliza qualquer esforço sério de reforma. Nesse aspecto específico da alfabetização, o ministro da Educação, Fernando Haddad, já avançou muito mais do que o governo paulista. Sabemos que, pelo tempo que resta, dificilmente o atual governo dará cabo das duas condições que faltam para fazer uma escola funcionar de maneira eficaz. O que nos remete ao reconhecimento de que o êxito dependerá de cada diretor e sua equipe. Mas, mesmo que tudo corresse bem, não podemos esquecer a trava estrutural que nos prejudica: nada substitui um professor bem formado. E essa é uma agenda do futuro. Uma verdadeira reforma da educação precisa de vários ingredientes. Um deles é a resolução do pacto federativo, com a municipalização do ensino infantil e fundamental e a responsabilização dos municípios. Outro ingrediente é tornar o magistério atrativo para os melhores alunos que saem do ensino médio ou da faculdade. Nos países desenvolvidos, os candidatos estão entre os 25% melhores do ensino médio; no Brasil, entre os 15% piores no Enem. Mudar essa realidade requer políticas diferenciadas de carreira e planos de migração -assunto politicamente delicado. Além disso, é necessário desenhar estratégias, como políticas de autonomia escolar em dois tempos. As escolas que tivessem professores devidamente qualificados e atingissem níveis adequados de desempenho - digamos, 75% dos alunos com 220 pontos ou mais na Prova Brasil de Língua Portuguesa na 4ª série - receberiam autonomia pedagógica, o que significa escolher materiais e métodos para implementar o programa de ensino. Até lá, caberia ao poder público adotar medidas eficazes de natureza gerencial e pedagógica para suprir as lacunas de formação dos professores. Isso sem falar na reforma do ensino médio e na educação para a primeira infância - assuntos que não cabem no presente artigo.Os hiperlinks ao longo do texto foram por mim inseridos. Não constavam do artigo original.
Escrito por Simão Pedro Marinho às 15h34
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Educação: duas visões. Fala o Ministro da Educação
Transcrevo o artigo de Fernando Haddad, ministro da Educação, publicado hoje na Folha de S. Paulo. Que o artigo seja estimulador de um debate. Portanto, leia, comente, posicione-se. Observação: os links ao longo do artigo foram por mim inseridos. Obviamente eles não estavam no texto impresso no jornal.
Educação: duas visões A adesão dos 27 governadores e 5.563 prefeitos ao Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), do governo federal, pode passar a falsa impressão de que há consenso acerca do que precisa ser feito pela educação brasileira. De fato, o Ministério da Educação, de comum acordo com os gestores locais, definiu 28 diretrizes, como avaliação por escola, escolha criteriosa de diretores, obrigatoriedade de aulas de recuperação para alunos defasados, regulamentação do estágio probatório, valorização do mérito e da carreira de professor, promoção da educação infantil etc. Além disso, fixou para o país, para cada rede e cada escola metas de qualidade, valendo-se do Ideb, indicador de qualidade que combina o resultado dos exames nacionais de proficiência em matemática e leitura e as taxas de aprovação. Havia grande resistência na divulgação dos resultados por escola, mas mesmo os governos estadual e municipais que não aderiram à Prova Brasil em 2005 foram vencidos pela evidência de que esse é um direito das famílias que contribui para a melhoria da qualidade e da gestão da educação. Contudo, se há acordo em relação a diretrizes e metas, o mesmo não pode ser dito em relação a estratégias. O Brasil, dessa forma, se transformou num enorme laboratório em que várias concepções de educação vão sendo testadas, e experiências, trocadas, tendo como pano de fundo o direito fundamental do aluno de aprender. É possível, dois anos após o lançamento do PDE, agrupar essas estratégias em torno de dois eixos: um mais progressista e um mais conservador. Mais ou menos financiamento? Os especialistas se dividem. Alguns defendem que o patamar herdado de investimento público em educação como proporção do PIB, de 4%, é suficiente e que o problema reside na gestão desses recursos. Outros defendem a ampliação dos investimentos para, no mínimo, 6%, com melhor gestão. O governo federal pretende atingir, em 2010, a meta de 5%, em trajetória ascendente. Os conservadores, na reforma tributária, trabalham nos bastidores pela desvinculação de receitas dos Estados para a educação, a chamada DRE; os progressistas comemoram a iminência do fim da DRU, dispositivo constitucional que, desde 1995, retira mais de 20% do orçamento do Ministério da Educação. Avaliação para quê? Premiar e punir, sugerem alguns. Aqui há que considerar certos aspectos. Se não acompanhado de aumento do financiamento, mais recursos para escolas que cumprem metas de qualidade pode significar menos recursos para as que não cumprem. Isso pode implicar punir uma segunda vez alunos de escolas que não avançam. Outra possibilidade é aquela que, ao ampliar o financiamento, promove as transferências adicionais de recursos, combinando a lógica do mérito à da colaboração: repasses automáticos para escolas que cumprem metas, ampliando sua autonomia, e repasses condicionados à elaboração, com apoio técnico, de um plano de desenvolvimento pedagógico e formação de professores para escolas cujos indicadores de qualidade as situem abaixo da média. O MEC, desde 2007, de forma pioneira, repassa diretamente recursos adicionais para as escolas públicas do país utilizando esse critério. Por fim, o mais importante: a questão dos professores. Uma ala faz recair sobre os ombros do magistério toda a responsabilidade pela baixa qualidade do ensino. As instituições de ensino superior que os formam e os gestores que os contratam quase nunca são lembrados, embora baixos salários, contratos temporários e formação inicial e continuada precária sejam a regra em nosso país. Reforça-se, assim, aquilo que Theodor Adorno chamou de "tabus acerca do magistério", num ensaio mais do que atual. Noutro polo estão os que entendem que "os melhores professores do Brasil são os professores do Brasil" e que a guerra contra a má qualidade do ensino se ganha com eles, e não contra eles. Defendem o piso nacional do magistério, constroem a carreira com a categoria e procuram corresponsabilizar a classe política e as instituições formadoras pelos destinos da educação. Nessa direção, o Ministério da Educação, a partir de 2005, divulga o Ideb de cada rede de ensino às vésperas de cada eleição e, por meio do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), fecha cursos de licenciatura de baixa qualidade. Como se vê, o Brasil deu importantes passos, mas há muito debate pela frente.
Escrito por Simão Pedro Marinho às 15h29
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